299 COLABORADORES

Vitor de Athayde Couto

Marilena Chauí é filósofa e professora emérita da melhor universidade do Brasil e da América Latina – a Universidade de São Paulo (USP). Ela afirma que a chamada classe média não é classe. São apenas pessoas que vivem entre o pesadelo e o sonho. “O sonho de um dia ser classe dominante e o pesadelo de perder o que tem e cair para a classe trabalhadora. Para alimentar o sonho, bajulam os dominantes e massacram os dominados, com seus discursos e suas práticas.”

Elas funcionam como correia de transmissão da ideologia burguesa para toda a sociedade, apoiada na grande mídia, e sempre a serviço do também grande capital.

Pouco a pouco a mídia vai difundindo e incorporando palavras como micro, pequena e média empresa, empreendedorismo, ganha-ganha, investimento, inovação… e assim toda a sociedade vai se enganando e enlouquecendo  também, pouco a pouco.

Essa velha arte de enganar atinge o topo quando os trabalhadores viram “colaboradores”. Pior de tudo é saber que ficam até orgulhosos ao serem apelidados assim. Por quê? Vai saber. Talvez por culpa ou vergonha do tempo em que eram apenas empregados. Isso se aplica desde a grande empresa até o antigo emprego doméstico, quando as trabalhadoras ainda eram apenas empregadas. Hoje são tratadas como “minha funcionária”, “minha  secretária”, sabe-se lá o que mais.

Mas, afinal, o que é ser empregado? Ora, empregado é quem tem emprego, ou seja, um trabalho garantido por tempo de serviço, regulamentado, com direitos sociais mediante contrato apoiado na CLT, a exemplo de férias e folgas remuneradas, décimo-terceiro salário, auxílios e licenças.

“Colaborador”, por sua vez, é um apelido carinhoso para quem é terceirizado, sem direitos sociais, estressado… Em uma só palavra: precarizado.

Mas a mídia não para por aí. Sempre à procura de assunto, os jornalistas, ou melhor, os “frilas” e estagiários já começam a substituir “precarização” por “uberização”. Enquanto isso, entregadores e motoristas por aplicativo são tratados como colaboradores-parceiros.

Em caso de dúvida, basta olhar em volta e você encontrará alguém vestindo uma camiseta, ops, uma t-shirt, onde se lê: “Posso ajudar?”

OBSERVAÇÃO: Hoje, excepcionalmente, Ifé teve que se ausentar para realizar uma pesquisa de campo e levou consigo todas as notas de leitura. Espero que ela esteja de volta na próxima sexta-feira.

Ouça o áudio com a narração do autor:

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