– A cidade um dia foi linda, com ruas largas de calçamento. As praças eram bastante espaçosas, sem barulho ao vivo dos atuais cachaçódromos que perturbam passeios e caminhadas dos últimos pacatos cidadãos. De tão bem arborizadas, as praças exibiam imponentes palmeiras imperiais seculares que se destacavam entre verdadeiros bosques de oitizeiros, figueiras e flamboiãs, sombreando coretos e pérgulas. Casas de muro baixo e nenhuma cerca elétrica ofereciam cadeiras nas calçadas preguiçosas, e segurança para quem quisesse falar da vida alheia à vontade. Fofocar faz bem à saúde. Viver com segurança, mais ainda. Era tudibom. Até que um dia aterrissou um trem voador na avenida principal da cidade. Dos vagões desembarcaram umas pessoas que só pensam em dinheiro. Mandaram construir galpões pré-moldados e casas-caixão modernosas, pintadas com a cor de jumento. Não satisfeitos, esses etês tropicais impermeabilizaram com asfalto os calçamentos históricos sujando e climatizando a cidade até atingir a temperatura do inferno, conhecida como a quintúria do cão. Moradores inocentes, deslumbrados com esse novo modelo, logo aprenderam a invadir calçadas e outros espaços públicos onde constroem puxadinhos com braseiros de jante enferrujada, respiram fumaça e sapecam espetinhos de pets.

– Pets? Diabéisso?

– Sabe não? Já vi que você é turista, não entende português. Pets são gatinhos gordos e fofinhos, de raças exóticas, criados com ração de soja transgênica, suplementos ultraprocessados, tripas de microplásticos, lacinhos cor-de-rosa…

– Olha o trem passando!

– Onde?

– Ali, ó! Lá em cima, voando no céu!

– “Não acredito não, Charlene.” E nem tem maquinista!

O TREM-FANTASMA

Gares, praças, oficinas, trilhos, troles, caixas-d’água, pontes sem dono, tudo foi abandonado. Quando o último maquinista morreu, desprenderam-se pedaços de um trem-fantasma que circula sem rumo pela cidade sem rumo. Na boca da noite, as almas das velhas locomotivas Maroquinha e Miliúm espirram vapores ao se aproximarem do cais da antiga estação. Adiante, um vagão perdido na praça, carregado de livros, conta histórias para ninguém. Já era tarde da noite quando dois outros vagões se encontraram. De tão entediados que estavam, apaixonaram-se e se casaram. Antes mesmo da lua-de-mel, decidiram fugir da cidade no primeiro avião. Acampados ao lado do aeroporto, os vagões esperam em vão o voo internacional prometido pelos políticos em ano eleitoral. Um velho fiscal de trem, fardado e munido de alicate que fura bilhetes, desvia-se das faíscas e percorre os corredores à procura de passageiros clandestinos. Mas, nos assentos macios da primeira classe, só encontrou esqueletos em férias, saídos dos armários da memória, ansiosos por um banho de mar na última estação dos ventos alísios.

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