FESTA-SURPRESA NO CÉU[1]

Vitor de Athayde Couto

A célebre frase do economista John Maynard Keynes sentenciava: “no longo prazo, estaremos todos mortos.” Menos de um século depois, Bruno Ferrari e outros jornalistas (Revista Exame de 13/11/2013, página 152), parafraseando Keynes, dizem: “é possivel que, no longo prazo, estejamos quase todos vivos.” A matéria “Um mundo mais velho e mais forte” destaca: o aumento radical da expectativa de vida mudará a cara do mundo nas próximas décadas – e isso deverá se transformar em imensas oportunidades para as economias e para as empresas.

Estudo da Universidade de Oxford conclui que os americanos com 50 anos ou mais movimentam 7,1 trilhões de dólares por ano. Se eles formassem um país independente, seriam o terceiro maior PIB, atrás de Estados Unidos e China. E nós? O que temos a ver com isso? Tudo, pois o Brasil é um dos cinco países que terão mais de 1 milhão de habitantes acima dos 100 anos ainda nesta década. Parnaíba há muito já integra esse clube de centenários – o que torna a longevidade um tema importante para as nossas familias, que acabam se envolvendo com novas questões: um centenário deve tomar conhecimento de notícias muito ruins? (a morte de um parente mais jovem, por exemplo). Quem cuidará dos centenários? Como fazer para que eles permaneçam ativos, com qualidade de vida? Essas e outras questões envolvem uma rede de profissionais, de médicos a cuidadores, passando por fisioterapeutas e burocratas do sistema público e dos planos de saúde.

O exemplo de minha mãe

Minha mãe, ainda lúcida, quase chegou aos 100 anos. Quando eu era muito pequeno, ela contava histórias. Éramos cinco irmãos, tivemos muita sorte. Primeiro, porque não existiam touchscreens pra gente ficar o dia inteiro consumindo aplicativos, grudados em telinhas de gadgets descartáveis. Segundo, porque nossos pais eram exímios contadores de histórias (espécie em extinção). Terceiro, porque a família (outra espécie em extinção) tinha uma livraria (idem). Livros de histórias infantis não faltavam em casa. Eram livros reais e não essa tralha semi-virtual, plastificada, com chips movidos a pilha, a que chamam livro infantil. Em vez de ler, e por não saberem mais falar, ler e escrever corretamente, as crianças limitam-se a apertar infinitos botões enquanto os adultos aplaudem a intoxicação tecnológica pensando ser isso o tal desenvolvimento.

Não posso esquecer uma das histórias que ouvi incontáveis vezes: a festa no céu. O tema era o de sempre: vai ter festa no céu, reunião da bicharada, etc. O foco era o jabuti que estava doido pra ir à festa. Sim, naquele tempo havia tema e foco, pois não tínhamos acesso a cinco mil brinquedos chineses, quase todos por um real. Cada menino tinha um único brinquedo, sólido, tão durável que era repassado para os irmãos seguintes. Podia ser um cavalinho de madeira ou uma simples palha de carnaubeira com olhos de mulungu. O cavalo de palha era naturalmente descartável, mas permanecia durável o conhecimento, a técnica para fazer tantos cavalos quanto necessário. Essa habilidade era passada de irmão para irmão. O cavalo era o tema e o foco da brincadeira.

As meninas, por sua vez, tinham uma boneca comprada, ou feita em casa, de pano, como também se faziam as bolas de meia. Mais pobre que fosse, nenhuma menina ficava sem cinco pedrinhas, ou uma simples casca de banana pro jogo da amarelinha rabiscada no chão. Elas também tinham foco e não queriam menos do que ir pro céu – objetivo do jogo.

Hoje, intoxicados por telinhas e mais de cinco mil super-heróis-super-baratos, de nomes estranhos e difíceis de memorizar, as crianças perderam o foco. Em outras palavras, perderam o poder de concentração. Mas, em compensação, e graças à posmodernidade, ganharam sessões com pseudopsicopedagogos (há exceções) e outros pseudoprofissionais de nomes igualmente estranhos. Esses pseudos ainda têm a cara de pau de elogiar a riqueza eletrônica multifocal, “porque estimula a criatividade, prepara melhor para o mercado de trabalho”, etc. Só esquecem de dizer que mercado de trabalho real é esse, a que empregos, ou melhor, ocupações do futuro se referem… Enfim, só faltam jurar que a criança-adolescente estará bem preparada para passar o dia numa baia de callcenter, ouvindo desaforos, apoiada num elevado “quociente emocional”, ou entregando pizza numa moto. Esses pseudos trocam, por dinheiro, a esperança dos pais, de que a criança um dia volte a se concentrar nas atividades – como se fazia antigamente. Como antigamente? Impossível… a menos que a criança tenha pais contadores de histórias. Mas, para isso, é desejável que os pais saibam ler, encenar, fazer mungango, e, sobretudo, deve-se ter pelo menos um livro em casa (mais outra espécie em extinção). Nenhuma criança ficava de fora, mesmo tendo pais analfabetos, pois havia a história oral, e, sobretudo, a imaginação, quase sempre focada no folclore local e nas assombrações não menos interessantes.

Voltando ao foco

Voltando ao jabuti, a festa no céu tinha este sub-título: você sabe por que o jabuti tem o casco todo remendado? Teimoso, o jabuti queria porque queria ir à festa, mas não podia voar. Até que convenceu o urubu a lhe dar uma carona, e lá se foi para a grande nuvem, que era o salão da festa, o Cassino. No meio da animação, o jabuti acabou caindo e se espatifou no chão, quebrando-se o casco. “Aí”, prosseguia minha mãe, “Nossa Senhora teve pena dele e remendou o seu casco”. E concluía (sim, toda história tinha um final, uma conclusão) assim: “é por isso que o jabuti tem o casco todo remendado.”

Agora, vamos ao título: por que festa-surpresa? Hoje, somos apenas quatro irmãos. Falta o Erico, que faleceu há mais de um ano, no Rio, sem minha mãe saber. Por isso, ele é a surpresa da festa no céu, aonde minha mãe acaba de ir, para encontrar os familiares e amigos que também já se foram. Fico cá embaixo imaginando a cara que ela vai fazer ao ver o filho querido, igualmente convidado para a festa. Imagino que ela vai falar bem baixinho: “esse Vitor…” É que eu, durante mais de um ano, telefonei religiosamente, sempre aos domingos à noite, imitando a voz do Erico, ligando “do Rio”. Embora emocionalmente difícil para mim, essa era uma tarefa tecnicamente fácil, rotineira, porque o Erico sempre foi muito disciplinado, organizado e previsível. Depois de perguntar por todos e manifestar a sua saudade, despedia-se sempre com a mesma frase: “Ciao, mãe, fique com Deus”. Frase que eu passei a repetir, com a mesma entonação. Minha mãe acreditava, sorria, ficava mais feliz.

Mentira cristã? Sei lá, apenas segui o conselho médico do Dr. Carlos Araken: “Vitor, pra que dar essa notícia tão ruim? Quem ganha com isso? Nessa idade (98 anos), a gente deve ter cuidado até com notícia boa”. Pois não me arrependo de ter mentido durante tanto tempo. Faria tudo novamente para ter a graça de ouvir minha mãe sorrindo, só porque “falou” com o Erico e ficou sabendo que todos estão bem. Sei que muitas famílias vivem esse mesmo dilema. Mas nem é preciso filosofar. Basta não complicar e desapegar – tarefa fácil para os filhos de pais-leitores, contadores de histórias.

Embora estejam cercados de milhares de tralhas chinguelingues baratas, os pais de hoje ainda podem criar momentos prazerosos para si e seus filhos. Consta que bastam 10 minutos de convivência por dia. Até por menos do que isso, qualquer coisa será inesquecível, ao contrário de 10 horas solitárias de videogame. Se ter tempo é uma questão de preferência, é sempre possível encontrar alguns minutinhos para outras atividades, como cuidar do jardim, fazer um bolo, ver fotos antigas da família, consertar a bicicleta, fazer uma pipa, pescar no rio, ou dar banho no cachorro.

Minha mãe se foi, mas deixou as histórias encantadas que eu guardo no coração. Graças a elas transito com desenvoltura entre o mundo da fantasia e uma realidade que já não me assusta. Com ela aprendi a ver a realidade como uma ficção vivida.



[1] Dedicado a minha mãe, Dalva Athayde de Lima Couto, falecida no dia 25 de novembro de 2013.