LARANJÃO E BIBISTEIN
Vitor de Athayde Couto
Ao tomar conhecimento de mais uma briga na saída do colégio, a diretora manda Zé e Chiquim para a enfermaria. Enquanto o professor de Ciências faz curativos com éter do laboratório (pelos gritos que se ouvem, parece doer mais do que os bofetes), a diretora dirige o olhar firme a Laranjão e Bibistein, os dois insufladores da briga.
– Foi ele! Foi ele! – disse Laranjão, apontando o dedo para Bibistein.
– Foi ele o quê? Eu nem perguntei nada! – diz a diretora, sem entender.
– O Bibi, professora. Ele disse que, se os meninos não brigassem, ia jogar uma bomba no recreio das meninas para matar todas elas.
– Haha – a diretora ri, e acrescenta – ele só pode estar delirando, Laranjão! Como é que um ser humano pode pensar uma coisa dessas? As meninas são internas do curso infantil no convento das freiras. Elas ainda nem sabem se defender.
– Não sabem, uma ova! – interveio Bibistein – uma delas até me mordeu! Pensa que dentes de leite não mordem? Só porque eu fui tirar aquele véu horroroso que ela usa…
– O quê? – exclamou a diretora – aquele véu é sagrado, elas são as futuras noviças do convento de Nossa Senhora dos Pés Descalços. Agora, me diga, por que você insiste para os meninos brigarem?
– Ora, pró. Eu estou perdendo minha popularidade entre os colegas do colégio, e preciso fazer uma fumaça externa pra chamar a atenção deles. Alguma coisa mais radical, a senhora entende?
– Sim, estou a perceber. Então, na próxima saída do colégio, quem vai brigar é você e o Laranjão. É sempre bom brigar com meninos do mesmo tamanho.
– Não, senhora diretora. Por favor, eu não sei brigar. Só sei mandar os outros brigarem, de preferência os mais jovens.
– Mas agora você vai ter que brigar. Precisa brigar, enquanto é tempo. Como diz um provérbio chinês: “Quem não briga na infância vai querer brigar depois de grande.”
Bibistein não brigou com Laranjão. Correu do pau, como se diz. Passadas seis décadas, agora membro da elite, finalmente realizou seu desejo. Bombardeou uma escola inteirinha e matou umas 170 meninas, entre 7 e 12 anos de idade. Laranjão, que também é membro da mesma elite, ao saber do ocorrido, lamentou, dizendo:
– Mas, Bibi, você devia ter sequestrado as meninas, levado pra nossa ilha, a gente ia se divertir muito.
– Não, Laranjão, não vale a pena – respondeu Bibistein – elas estão fora do nosso padrão, não são loirinhas. Na verdade, são selvagens como animais, e não têm medo da morte. Quando eu era jovem, tentei arrancar o véu de uma delas – eu só queria ver a cor dos seus cabelos. Ela reagiu como uma fera e mordeu a minha mão. Você não conhece esse tipo de gente. Pensa que é fácil, mas não é. Um dia nós também vamos morrer. As meninas, não. Elas nunca morrem, apenas são martirizadas.
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