O CARRO DO OVO

 

Vitor de Athayde Couto

Helena Morley, no seu comovente diário “Minha vida de menina”, conta que ela e seu irmão tinham, cada um, uma galinha no quintal de casa. Findava o século XIX na cidade mineira de Diamantina. Uma cozinheira preta muito sábia, e uma avó branca cultivada, graças à sua condição social, são exímias contadoras de histórias, e enriquecem aquele quase sítio de pica-paus amarelos.

Nos fins de semana de contação de histórias, as crianças assistiam a uma verdadeira batalha entre, de um lado, a imaginação, e, de outro, a memória de leituras de livros. Desejando prolongar as contações, convidavam primos, vizinhos, organizavam torcidas, e todos torciam pela briga.

Um sítio (ou até mesmo um quase sítio) é o suficiente para se criar um mundo de fantasias e alegrias, em meio a sofrimentos de galos (na cabeça), perebas, cortes e bichos no pé.

Ah, ia esquecendo as recidivas das febres-não-se-sabe-de-quê. Na dúvida, dizia-se simplesmente “febre de sapo”. Se isso é ignorância de gente da roça, o que dizer dos médicos que atribuíam quase tudo e qualquer coisa a alergias? Ou, mais recentemente, a viroses? Viroses significam tudo e nada, ao mesmo tempo – embora suscitem mais alguma despesa extra no balcão das novas redes de farmácias de esquinas e cruzamentos, mais conhecidas do grande público como “lavanderias”.

Farmesquinas, uniesquinas, academiesquinas, labesquinas, açaisquinas (com banana e granola), padari… ops, delicatessesquinas… enfim, tudo é esquina, menos o bar da esquina, em franca extinção, porque ninguém tem mais saúde pra encarar “um chopes”, como se diz em São Paulo. O que ainda resta de saúde só permite beber menos e ouvir algum adonirã chapado perguntar: “Nós viemaqui pra beber ou pra discutir se “o chopes” é artesanal, IPA, long neck de vidro escuro?”. Pois o que não falta é palpiteiro metido a someliê de chopes.

Voltando ao quintal mineiro, todo mundo sabe que a postura de um ovo é o evento mais importante do galinheiro. Por quê? Ora, alguém já viu sinfonia de cacarejos quando um pintinho nasce? Atenção, galera do play, que nunca viu uma galinha pondo ovos, e pensa que os frangos são núguetes mequichíquen:

Cacarejar festivamente no galinheiro significa que uma galinha acabou de botar ovo. É o sinal pra Helena e seu irmão correrem até o quintal e recolherem o ovo da sua respectiva galinha. Não sei se é verdade, mas Helena conta no diário que a sua galinha é aquela que bota o primeiro ovo do dia.

Quando os netos estão distraídos, fazendo reinações na sala, nunca ouvem o sinal. É nessa hora que a vovó ordena: “Vão logo pro quintal, vão ver se a galinha já pôs o ovo, anda, passa!”. Na Europa, essa mesma palavra de ordem pode ser traduzida assim: “vão ver se eu estou na esquina!”

Sinto pena de quem nunca teve sítio, quintal ou uma simples galinha, pois só conhece aquele sinal que pode ser ouvido até do alto de um apartamento no trigésimo andar; lá, onde nenhuma muriçoca chega, mas “ele” chega, bem na hora daquele soninho gostoso da tarde:

– CARRO DO OVO!!! CHEGOU O CARRO DO OVO!!!

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Ouça o áudio com a narração do autor:

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