VOCA BULÁRIO

 

Vitor de Athayde Couto

POR ENQUANTO

Estava com a pele irritada. Foi ao dermatologista e voltou com uma receita de pomada, creme, gel, pasta, cataplasma, unguento, meleca, gosma ou queca, sei lá, qualquer coisa assim.

Ao chegar à farmácia, pediu o medicamento, mas foi logo corrigido pelo vendedor com jaleco de farmacêutico:

– Medicamento? Ah, entendi. O senhor quer uma medicação.

Comprou o medicamento, ops, a medicação, dirigiu-se à estacionação, ops, ao estacionamento, entrou no carro e começou a ler a bula, antes de ligar o motor. Logo percebeu que tinha jogado seu dinheiro fora, ao ler: “Este medicamento alivia irritações na pele. Mas, atenção, pode causar irritações na pele. Caso isso aconteça, entre em contato com o seu médico imediatamente.”

Ligou o motor do carro e voltou pra casa com a pele mais irritada, o bolso e o coração também.

Horas depois, na ceia de Natal com a família, um parente médico disse que ele devia procurar um neurologista. Por enquanto.

VOCA BULÁRIO

Tinha mania de ler bulários de remédios. Um dia, quando esteve internado, ouviu dois médicos que trocavam de plantão e se divertiam conversando no corredor do hospital, sempre ironizando os pacientes, do alto de seus “doutoramentos”. O doutor A disse pro doutor B:

– Cuidado com o paciente do 202. Ele tem mania de ler bula de remédio, quer saber de tudo.

Naquele mesmo ano, o Congresso Nacional havia aprovado uma lei segundo a qual os laboratórios são obrigados a informar corretamente o cidadão, disponibilizando bulas com letras grandes, e um vocabulário minimamente compreensível. Agora, ler bulas para saber o que vai acontecer com o seu corpo e a sua mente, não é só um direito preservado, mas é também um dever do cidadão.

O preço da saúde é a eterna vigilância. Se um médico fica doente, raramente conversa com apenas um colega. Procura vários. Por que será, heim?

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