A VIDA DEPOIS DA MORTE

Vitor de Athayde Couto

CONTRADIÇÃO

De vez em quando ouvimos o seguinte: “Tudo que é bom engorda, faz mal ou é imoral”. Todo dia, porém, chegam mensagens dizendo que o que engorda mesmo é o celular. Que o celular emburrece, isola as pessoas, vicia em jogos… Que o celular matou o rádio, a lanterna, a máquina de escrever… E não param por aí. O repertório é infinito. O problema é que ninguém consegue mais dizer tudo isso sem usar o celular.

INCÊNDIO FLORESTAL

O Havaí não seja aqui. A maior potência econômica e militar do mundo já não consegue nem apagar um incêndio florestal.

IPA!

No dia consagrado aos heróis valentões, ele matou a mãezinha idosa com um tiro e sete facadas, e depois foi ao rodeio. Trazia sempre um copo térmico Stanley na mão para encher de cervejão, e, finalmente, soluçar: ipa! ipa! ipa! cavalinho alazão. E foi dormir bêbado como um herói.  No dia seguinte, acordou dependente químico, com um grande desafio pela frente: lutar pela independência ou morte.

SAL DO HIMALAIA

– Por que a Barbie é pink?

– Segundo o chef gurmê, a boneca foi criada por flamingos, e, desde criança, só come sal rosa do Himalaia.

A VIDA DEPOIS DA MORTE

Doou toda a sua fortuna aos pobres e subiu a mais alta montanha. Enfrentou dias e noites sob tempestades de neve até encontrar o Mestre, e perguntou:

– Saí, existe vida depois da morte?

Prontamente, o Mestre respondeu:

– E eu que sei? Tédoidé? Num é à toa que eu me chamo Saí.

E saiu. Sim, saiu, foi embora, es-ca-fe-deu-se, de cabeça raspada, coberto com aquele lençol alaranjado que forrava a cama eca. E a cueca! Resolveu ganhar o mundo e ganhou o mundo, convencido de que a alma humana já não valia mais a pena. Um dia, chegou no Nordeste do Brasil e ganhou logo, na hora, um monte de apelidos: jerimum, taquêra, laranjão, bróba, cenourinha, Barbie arrependida, gururoba, procurando Nemo… Mas ele ainda não dominava o nordestinês. Mesmo assim, ficou muito feliz ao ver o povo curvado diante de buda. Era buda pra lá, era buda pra cá, buda na praia, buda lelê no carnaval… Até que um dia o Mestre chorou. Chorou de felicidade ao descobrir que não era buda, era bunda. Isso mesmo, eu disse bun-da! E assim, o Mestre, que nunca mais voltou pro alto da montanha do Himalaia, prestou juramento diante de todo mundo: “Gentchê, a praia é muita melhor, tem morena com um bunda desta tamanha!” – e mostrou com as mãos a dimensão da preferência nacional. Parecia um pescador mentiroso, mostrando o tamanho do peixão que ele nunca pescou.

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