BROXA OU BROCHA?

 

Vitor de Athayde Couto

 

Maruzinho meditava, lembrando que seu pai, grande torcedor do Parnashya Sport Club, não sabia dizer uma posição em português, no escrete (scratch) ou time (team). Ninguém falava seleção. Ninguém sabia o que era impedimento, escanteio… Só se dizia ofisáide (offside), córner (corner), centerráufi (centerhalf), golquíper (goalkeeper). Não tinha nem árbitro, nem juiz. Tinha rifirí (referee), e o treinador era coxo haha (coach).

Galerão continuou:

– Nos intervalos e nos fins-de-semana (week-ends), os ingleses organizavam partidas de sócar (soccer), móde socar o terreno.

– Como assim? – perguntou Maruzinho.

– É o seguinte, antes de construírem as casas, os ingleses mandavam limpar os terrenos. Sempre havia um declive aqui, um alagamento acolá… Às vezes, pra nivelar, tinham que trazer terra de outro lugar, em carroças puxadas a burro. Eram muitas carroçadas, tudo na pá de mão ou rendichóvel (hand shovel). Depois de tudo nivelado, o terreno ficava fofo, e isso não é bom pra construção. Era preciso socar. Daí, eles inventaram esse tal de sócar. Como a bola era chutada com o pé (foot), anos depois o sócar ficou conhecido como futebola, depois, futebol, como se diz hoje em dia (silêncio sepulcral). Continuando, quero dizer que considero essa a maior invenção dos ingleses. Primeiro, eles marcavam o terreno da futura obra, com cal virgem (ainda existia alguma coisa virgem naquele tempo). Marcas que seriam depois aproveitadas pra definir os alicerces. Em seguida, mandavam os operários, e aprendizes jogar sócar com o objetivo de socar o terreno. Conclusão: os trabalhadores se divertiam trabalhando, felizes, nos intervalos e fins-de-semana. Por falta de inflação, ninguém pedia aumento. E nunca se falou em greve.

– E as outras ferramentas? – perguntou Half.

– Nas revistas, encontrei, além dos desenhos das ferramentas, os nomes de cada uma, sempre em inglês. E assim eles aprenderam a usar o prái…

– Práio – corrigiu Saló.

– Não, práio é outra coisa – peitou Galerão, com segurança. – Práio (pliers) é alicate, enquanto prái (pry) é alavanca. Ainda hoje tem gente que chama facão de Collins, mas, nesse caso, Collins é a marca do lagináife (large knife). Estrepe (strap) é uma correia; só não pode é confundir com aquele estrepe (do italiano sterpo) que a gente bota no quintal móde furar pé de ladrão-de-galinha. Broxa (brush) é pincel…

– E brocha? Eu digo brocha, de brochar… – perguntou o bêbado.

(silêncio)

– Sei não – respondeu Galerão, prontamente. – Disso eu não entendo.

Os jogadores foram saindo, deixando pra trás o Salão Tujegue (U.S. Saloon) com suas portas vai-e-vem (back-and-forth). Ficou somente Loréu, o eterno bêbado, perguntando pela origem da palavra baitolage. Como resposta, só se ouviam os últimos nhém-nhém-nhéns das portas. Peraí, seriam portas vai-e-vem ou portas vão-e-vêm? Amanhã, se houver tempo, a gente cuida disso.

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Escute o texto com a narração do próprio autor: