03.01

Edições mais antigas dos Jogos tinham esportes incomuns como mergulho em distância, salto em altura parado e até duelo de tiro no melhor estilo Velho Oeste.

Vôlei, basquete, natação, atletismo? Moleza. Difícil é segurar a respiração na piscina enquanto o pulmão resistir, arrastar o adversário puxando uma corda, esculpir uma estátua ou pintar um quadro com alma de artista. Acredite ou não, já foi assim nas Olimpíadas. É hora de relembrar esportes curiosos que já integraram o programa olímpico, com ilustrações de Mario Alberto.

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CABO DE GUERRA

Paris 1900, St. Louis 1904, Londres 1908, Estocolmo 1912 e Antuérpia 1920

Modalidades bizarras esportes cabo de guerra (Foto: Mario Alberto/GloboEsporte.com)

Simples: oito de cada lado da corda, vence quem conseguir puxar os adversários até a linha central – ou quem estiver mais perto do objetivo ao fim do tempo estipulado. Não pode cair ou escorregar. Na gincana da escola tudo bem, mas em plena Olimpíada? Pois é. O cabo de guerra foi esporte olímpico no início do século 20. E começou meio na bagunça. Em 1900, por exemplo, um atleta dinamarquês ficou doente, e um jornalista que cobria o evento foi chamado para compor a equipe. Acabou levando o ouro.

Era comum que policiais representassem os países. Em 1908, por exemplo, só deu Inglaterra. O ouro ficou com a Polícia de Londres, a prata foi da Polícia de Liverpool, e o bronze coube a uma divisão da Polícia Metropolitana da capital inglesa. Nesta edição, o time americano, formado por atletas do levantamento de peso, abandonou a disputa. Os “mastodontes galantes”, como eram chamados pelos britânicos, acusaram os rivais de Liverpool de trapaça por usarem botas ilegais com travas e pregos.

Fora das Olimpíadas há quase um século, o cabo de guerra ainda é praticado no mundo todo e tem até Federação Internacional com mais de 60 países filiados – incluindo o Brasil.

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MERGULHO EM DISTÂNCIA

St. Louis 1904

Modalidades bizarras esportes mergulho em distância (Foto: Mario Alberto/GloboEsporte.com)

Esta aí só resistiu a uma edição dos Jogos Olímpicos. A ideia era mergulhar na piscina, como se fosse uma prova de natação normal. Mas o normal acabava por aí. O atleta não podia mais se mexer – nada de braçadas ou bater pernas. Flutuando só com o impulso do mergulho, vencia quem percorresse a maior distância na água no tempo de um minuto – ou até levantar a cabeça para respirar. 

Os bambas da prova no início do século 20 eram os ingleses John Arthur Jarvis e W. Taylor. Nenhum dos dois viajou para os Estados Unidos, e a Olimpíada de St. Louis em 1904 teve apenas americanos na disputa. O vencedor foi William Dickey, que percorreu 19,05m, quase dois metros a mais que o segundo colocado, Edgar Adams, e quase quatro metros a menos que o recorde de Jarvis na época. Mas nos dias atuais já teve gente tirando onda na internet por quebrar essas marcas na piscina da escola.

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ESCALADA DE CORDA

Atenas 1896, St. Louis 1904, Paris 1924 e Los Angeles 1932

Modalidades bizarras esportes escalada de corda (Foto: Mario Alberto/GloboEsporte.com)

Está achando que é fácil escalar uma corda de 14 metros na raça? Isso era esporte olímpico no início do século, seja como modalidade isolada ou como parte das provas da ginástica. O primeiro a subir no degrau mais alto do pódio foi o grego Nikolaos Andriakopoulos, que subiu a corda de 14m em 23,4 segundos na edição inaugural das Olimpíadas, em Atenas-1896. O segundo colocado foi outro grego, Thomas Zenakis – só eles dois conseguiram chegar ao topo da corda.

Em St. Louis-1904, a corda diminuiu para 8m. Quem venceu foi o alemão naturalizado americano George Eyser, um dos personagens mais curiosos da história olímpica. Ele embolsou seis medalhas na ginástica nesta edição, incluindo dois ouros, mesmo tendo uma perna amputada e competindo com uma prótese de madeira – Eyser foi atropelado por um trem na adolescência.

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NATAÇÃO COM OBSTÁCULOS

Paris 1900

Modalidades bizarras esportes natação com obstáculos (Foto: Mario Alberto/GloboEsporte.com)

Lembra das Olimpíadas do Faustão? Difícil não comparar. Na segunda edição dos Jogos Olímpicos, uma das provas exigia que os nadadores passassem por três obstáculos: passar por cima de um cano na superfície, por cima de uma fila de barcos e por baixo de outra fila de barcos. Tudo isso enfrentando a corrente do Rio Sena, em Paris.

A vitória foi do australiano Frederick Lane, acostumado aos barcos do cais do porto de Sydney. Em vez de pular os barcos pela parte do meio, ele ia pela popa, onde o percurso era mais tranquilo.

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TIRO AO VEADO

Londres 1908, Estocolmo 1912, Antuérpia 1920, Paris 1924, Helsinque 1952, Melbourne 1956

Modalidades bizarras esportes tiro ao veado (Foto: Mario Alberto/GloboEsporte.com)

Calma, nenhum animal foi morto nessas seis edições dos Jogos Olímpicos – pelo menos não nesta modalidade. Os atiradores na verdade atingiam uma tábua em formato de veado, que corria 22m em quatro segundos. O atleta ficava a 100m de distância e tinha quatro chances para acertar o alvo. Ao longo das edições dos Jogos Olímpicos, novas categorias foram adicionadas, até a prova ser extinta em 1956.

Não havia limite de idade para os atiradores, e Oscar Swahn levou isso a sério. O sueco virou o medalhista olímpico mais velho ao conquistar a prata no tiro duplo em 1920, aos 72 anos. Já tinha sido o medalhista de ouro mais velho, aos 64, em Estocolmo-1012. No total foram seis medalhas para Swahn, todas no tiro ao veado.

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TIRO AO POMBO

Paris 1900

Modalidades bizarras esportes tiro ao pombo (Foto: Mario Alberto/GloboEsporte.com)

Ok, aqui sim, animais foram mortos. E não foi pouca coisa. Cerca de 300 pombos fizeram seus últimos voos nos Jogos de 1900. Cada atleta era eliminado após errar duas vezes os tiros em pombos que eram soltos a 27m de distância. O vencedor foi um australiano que derrubou 22 pombos, superando 166 adversários.

A Olimpíada fazia parte da Exposição Universal, uma feira internacional para celebrar as conquistas do século 19, e essa modalidade não era considerada um esporte olímpico. Ainda mais depois dos protestos dos defensores de animais. Depois disso, nunca mais foram sacrificados animais em eventos olímpicos, e o Comitê Internacional nunca reconheceu os vencedores da prova como medalhistas oficiais.

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DUELO

Londres 1908

A Olimpíada já teve seu momento Velho Oeste. O duelo apareceu pela primeira vez no programa olímpico de 1906, nos Jogos intercalados, que não contavam para o quadro oficial de medalhas. Os atletas atiravam em um manequim vestido com um fraque. A disputa voltou nos Jogos de 1908, também em Londres. Foi um evento associado ao tiro, sem valer medalha. Mas daquela vez não havia manequins. Dois atletas competiam, um atirando no outro, com balas de cera e uniformes que eram praticamente armaduras.

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SALTO PARADO EM ALTURA, DISTÂNCIA E TRIPLO

Paris 1900, St. Louis 1904, Londres 1908, Estocolmo 1912

Modalidades bizarras esportes salto parado (Foto: Mario Alberto/GloboEsporte.com)

Raymond Ewry. Já ouviu falar? Não? E pelo apelido Perereca Humana? Nada? Pois esse indivíduo tem simplesmente oito ouros olímpicos. O azar dele é que as modalidades saíram do programa oficial há muito tempo. O americano dominou durante oito anos os saltos parados: em altura, em distância e triplo. Iguais aos de hoje em dia, mas sem corrida para pegar impulso. Entendeu agora o apelido?

Ewry venceu as disputas de 1900 a 1908 nos saltos parados em altura e em distância, incluindo a Olimpíada comemorativa não oficial de Londres-1906. O salto triplo parado só foi disputado em 1900 e 1904, e o americano ganhou as duas. Chegou a saltar 1,65m em altura, 3,47m em distância e 10,58m no triplo. Tudo isso depois de superar uma poliomelite na infância que o deixou por muito tempo em uma cadeira de rodas.

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CROQUÉ

Paris 1900

Se o golfe está voltando ao programa olímpico, vale lembrar que um primo distante já foi disputado nos Jogos. O croqué é jogado na grama com tacos golpeando bolas de madeira ou plástico por baixo de arcos encaixados no chão. Só esteve em uma edição, em Paris-1900, incluindo um torneio misto. Foi a primeira vez que as mulheres participaram das Olimpíadas, e das  23 pioneiras de Paris, três eram do croqué: Mme. Després, Jeanne Filleaul-Brohy e Marie Ohier. O problema é que a competição não foi exatamente um sucesso de público: os registros mostram que apenas um espectador pagou ingresso: um inglês que viajou de Nice até Paris para assistir à primeira fase.

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COMPETIÇÕES ARTÍSTICAS

Estocolmo 1912 a Londres 1948

De 1912 a 1948, não era só o esporte que passeava em terreno olímpico. Por iniciativa do Barão de Coubertin, competições artísticas também valiam medalha. Eram cinco categorias: arquitetura, literatura, música, pintura e escultura. Os artistas só saíram do programa dos Jogos porque passaram a ser considerados profissionais, e na época as Olimpíadas só aceitavam atletas amadores.

A regra era simples: as manifestações artísticas tinham de ser inspiradas no esporte e precisavam ser originais – não valiam obras publicadas anteriormente. O único a ganhar duas medalhas de ouro foi Jean Jacoby, de Luxemburgo. Em 1924, ele venceu com a pintura “Étude de Sport”, e em 1928 conquistou mais um ouro com o desenho “Rugby”.

Fonte: Globo Esporte