CANETADAS BRASILEIRAS

 

Vitor de Athayde Couto

A MORTE DA CANETA

Recentemente foi noticiado que muitos candidatos ao Enem não conseguem usar caneta para redigir de 8 a 30 linhas, limites mínimo e máximo da redação.

Embora esse exame nacional exija caneta preta, consta que muitos jovens só conhecem as canetas do Neymar – que não convencem mais ninguém. São jovens que não conseguem escrever, mas sabem cantar “Caneta Azul”, com toda perfeição, assim: “aiaiai / eu vou dar uma volta / mesmo na crise dela / quando entrei no quarto / eu escutei só o gemido dela, aiaiai / caneta azul, azul caneta / tá marcada com minha letra / aiaiai” (ouça aqui se quiser acreditar).

– Bora relaxar, isso é só mais um hit de verão. Ninguém nem se lembra mais – diz a apresentadora do jornal, enquanto prossegue com a notícia, assim:

– Após avaliarem 2.536 candidatos de todas as regiões do país, pesquisadores concluíram que os jovens brasileiros não têm coordenação motora suficiente para empunhar uma caneta contra o papel. Só sabem usar os pequenos polegares contra as telinhas. Revoltados, alguns pais e responsáveis passaram a exigir que o exame do Enem seja feito à distância, com uso de celulares. A principal justificativa é que os cursos superiores já são mesmo feitos à distância, a exemplo das matérias Cirurgia Geral e Obstetrícia, no curso de Medicina. Agora, os vídeos dessa última matéria são feitos com bebês reborns munidos de Inteligência Artificial e mamadeiras de detergente.

A apresentadora suspira e faz uma ligeira pausa para ouvir o ponto que acaba de ser transmitido, com o seguinte esclarecimento:

– Desculpem, recebemos uma mensagem de última hora. As autoridades do ensino superior, esclarecem que não se usa mais o conceito de “matérias”, para designar as disciplinas oferecidas.

Após outra pausa, chega nova mensagem. A apresentadora suspira e continua:

– Pedimos desculpas, mais uma vez. É que acaba de chegar outra mensagem informando que também já não se fala mais em “disciplinas”. Elas foram substituídas por “componentes curriculares”, de acordo com as sucessivas e infinitas reformas do ensino etc. etc.

A CANETA DA MORTE

Ainda nervosa, a apresentadora suspira e chama o intervalo. Terminada a propaganda, a notícia seguinte ainda se refere a canetas, mas são canetas que não escrevem nada, e todo mundo conhece como “canetas do Paraguai”.

– Atenção – prossegue a apresentadora – a Anvisa acaba de divulgar que estão sendo investigadas 65 mortes suspeitas de complicações diversas associadas ao uso de canetas emagrecedoras. Procurado, o IML informa que todos os corpos necropsiados apresentam sinais de quedas de cabelo, motivadas por falta de nutrientes. Após cruzar diversos dados, um cientista, que pediu para não ser identificado, constatou que as pessoas viciadas em canetas paraguaias e detergente com leite condensado são as mesmas que negam as vacinas e a ciência, por causa de… sei lá… quem souber, morre!

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Ouça o áudio com a narração do autor: 

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