IMPÉRIOS E UTOPIAS
Vitor de Athayde Couto
Talvez Ifé não volte na próxima semana. Talvez não volte nunca mais. Talvez tenha sido abduzida pelo Iroko. Talvez nunca tenha pertencido a este mundo. Talvez, quem sabe, ela nunca tenha existido.
Quem escreve ficção não hesita em pedir ajuda à História – que está sempre a nos lembrar que todos os impérios emergem, dominam e caem. Há quem diga que é a Física, mas, não. É a História quem delimita o tempo e o espaço.
Com o desenvolvimento açodado das tecnologias (e, com elas, da velocidade), os impérios modernos e suas respectivas moedas parecem durar cada vez menos, quando comparados aos antigos.
Os adeptos dos impérios de plantão, saturados de ideologias, não conseguem perceber a realidade montanhosa. Daí a necessidade de se criarem mundos paralelos e planos, com base em fake news de fontes anônimas. Novamente a História nos lembra que, entre os impérios que se sucedem, estão as utopias – o soft power dos impérios.
Mas as utopias só se realizam no cinema, onde consumimos efeitos especiais, pipoca e inteligência artificial. Entalados, desidratados, pedimos água, e só nos oferecem edulcorantes.
Terminada a sessão da tarde, reencontramos a claridde. O escurinho do cinema se esvai por trás das cortinas que se abrem – e fecham nossas pupilas. A luz do dia nos traz de volta à realidade com suas academias, farmácias, uma em cada esquina, vendendo mounjaro paraguaio, e muita comida de rua, de qualidade eternamente duvidosa.
Na praça, uma viatura pisca para acalmar policiais assustados. Enquanto isso, o pregador habituê, embrulhado no eterno paletó suado e amarrotado, anuncia mais um fim do mundo. Mas é só o fim de mais um império.
Ouça o áudio com a narração do autor:
***
Caro leitor, tu também poderás ouvir este e outros textos, assistindo aos vídeos no canal YouTube do autor. Basta clicares aqui.
Impérios e Utopias – Por Vitor de Athayde Couto
