A ÚLTIMA CEIA
O Rabi deu graças, partiu o pão consagrado e o serviu em pedaços nas patenas à esquerda de cada apóstolo, dizendo: “Tomai e comei, este é o meu corpo”. Em seguida, serviu o vinho tinto em graais que se encontravam à direita de cada um, dizendo: “Tomai e bebei, este é o meu sangue”.
Judas is Queriote, acostumado a comer em pé, seja sanduíches, hambúrgueres, pizzas, deliveries ou guarnições de pipocas-de-cinema nos jantares no Templo de Jerusalém dos fariseus, nunca soube de que lado o pão é servido. Assim, afanou o pão consagrado do apóstolo André, que estava à sua direita, e comeu os dois pedaços, o da esquerda (o seu pedaço, conforme a etiqueta das antigas civilizações), e o da direita. Em seguida blasfemou em voz alta, quase gritando: “O pão da esquerda não presta, nada da esquerda presta!”.
Do mesmo modo, ao fim da ceia, Judas is Queriote tungou o graal do apóstolo Pedro, que estava à sua esquerda, bebeu o vinho consagrado dos dois lados, e não parava de blasfemar: “Esse vinho da esquerda também não presta!”.
Os galileus André e Pedro nada fizeram, pois sabiam que Judas is Queriote, que nunca foi pescador, não era boa bisca. Dentre outras coisas, ele tinha a má fama de roubar o caixa – era o tesoureiro do grupo.
O Messias permaneceu seguro e calmo. Ele sabia que o seu vinho era tão bom quanto aquele das bodas de Caná, e ninguém precisava prová-lo antes de beber. Por sua vez, o pão era tão perfeito quanto a fé que fermentou a pureza do trigo não-transgênico. Naquele tempo, o trigo ainda era o trigo de Deus. Trigo natural que não causava alergia e salvava os pecadores.
Excitado pelo efeito do álcool, Judas is Queriote percebeu que alguém o chamava do outro lado dos muxarabis. Era um negociador que veio convocá-lo para ir até a casa branca, encontrar autoridades religiosas e ajustar certa quantia em dinheiro.
Embora não fosse pescador como os galileus, Judas, dito de Queriote, reclamou da cor do vinho. Segundo ele, o vinho devia ser branco para harmonizar com os peixes que estavam sendo servidos. Sem pedir licença, num ímpeto, retirou-se da Santa Ceia, sem parar de blasfemar. Chamou os apóstolos de comunistas e gritou: “o meu vinho jamais será vermelho!”, “nem a minha túnica!” e “tudo aquilo que estiver à esquerda não presta, como não presta Gestas, o mau ladrão!”. Consta que foi daí que surgiu o conhecido ditado: “é o sujo falando do mal lavado”. Nas delações, ops, colaborações premiadas, os ladrões negociam por trás das treliças do poder judiciário, e sempre se entendem.
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