– Hoje tem espetáculo? – pergunta o palhaço triste, do alto de suas pernas de pau, com a boca pintada de alegre sorriso. Joãozim, menino agora crescido, não é mais aquele que respondia, aos gritos, seguindo o palhaço durante quase todo o dia, sob o sol quente:
– TEM SIM SINHÔ! – gritava até enrouquecer.
Ele e outros lisos corriam todos os bairros da cidade para ganhar uma carimbada oficial na mão – o que lhes dava direito a uma entrada grátis no velho circo de periferia e lona rasgada. Na tarde morna, pouco antes da vesperal, Joãozim tomava banho, cuidando pra não molhar a mão suja, suada e carimbada, mode não apagar o valioso ingresso que dava acesso ao poleiro mais distante e tão alto que a cabeça atravessava o buraco da lona, garantindo “vista pro mar” – como dizem os corretores de imóveis. Felicidade era a palavra que resumia toda aquela emoção.
Sem direito a pipoca, que as crianças riquinhas do camarote esparramavam, mais até do que comiam, a grande atração era a corda indiana. Por ela subia a trapezista coroa, das coxas grossas e brancas, presas numa meia-tarrafa preta. Impossível saber se a meia tinha mais remendos ou buracos, por onde a celulite teimava em escapar. Joãozim nunca mais sentiu aquela mesma excitação erótica de menino. Nem jamais sentirá, apesar da epidemia de academias fites.
Enquanto a orquestra tocava “Oh! Raia o Sol, suspende a Lua / olha o palhaço no meio da rua!”, Joãozim parecia ouvir seu avô cantando aquela mesma melodia, assim:
“Eu gosto do circo, somente em saber / que o que vovô viu, meu neto vai ver.”
– Será? – Joãozim pensava baixinho, com seus botões invisíveis, desses que já não existem nas camisetas-padrão, ops, t-shirts. Os circos não são mais os mesmos e os palhaços não roubam mais as mulheres. Será por que não é politicamente correto? Ou por causa da lei Maria da Penha? Não? Então… por quê? Por acaso já existem delegacias especializadas em atender mulheres roubadas por palhaços? Joãozim parecia ouvir uma voz que lhe falava assim:
“Casais apaixonados deixaram de existir. Namorados não querem mais fugir. Nem as mulheres querem ser roubadas pelos palhaços terceirizados e sem graça.” No tempo dos circos de verdade, as meninas queriam, sim, ser roubadas. Por quê? Ora, para fugir da mesmice dos rapazes que arrotam cervejas e peidam no sofá em frente à tevê do futebol recorrente. Porque os palhaços tinham graça. Porque o circo era a mais pura fantasia, ilusão e magia. Porque ir embora com o circo era o sonho de toda menina. Porque os palhaços eram como marinheiros, partiam e voltavam. Hoje, os palhaços não voltam mais. Porque nunca foram.
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